Eu vivo
à sombra dos meus ídolos. Eles estão lá, a todo instante me bombardeando com
inseguranças e fazendo minhas palavras serem tão balbuciadas quanto as de
Fabiano no sertão. Os vejo e me vem uma nuvem de rancor escura coexistindo com
aquele sentimento de que os admiro com uma profundidade irritante, pois sem
eles eu não seria nem metade do que sou hoje.
Meus ídolos
são, além dos ovacionados, aqueles que postam os melhores textos, os que tem os
amigos mais bonitos, os que tiram as fotos com os efeitos mais legais, aqueles
que conseguem milhares de curtidas. Venha você também me criticar e fingir que
não liga tanto ou mais que eu para esses detalhes. Pode vir, está convidado. A hipocrisia
neste mundo já ultrapassou todos os limites considerados saudáveis, mesmo.
Pois
lhe digo que os são, pois os são. Tento segui-los, tento ser como eles, tento
gritar minha opinião moldada, tento me vestir e ser tão underground quanto. Afinal,
neste mundinho bobo que nós construímos pra viver, existe um padrão a ser
seguido e nos coagimos quando desviamos deste caminho pré-delimitado antes
mesmo de notarmos. Ah não, aqui você não pode botar a culpa no sistema. Neste capitalismo
opressor. Na sociedade patriarcal e machista. No governo elitista. Na
meritocracia. Na mídia padronizada. Não, aqui a culpa é sua, viu? E aprender a
conviver com os padrões que você mesmo se impôs é uma habilidade que deverá
desenvolver sozinho. Desvinculado de todos esses vínculos. Achar o padrão que
se impôs é uma busca emocional. Se desvincular dele é espiritual. Convoque seu
Buda que o clima tá tenso.
Sei que
parte do que me imponho é retirado do que meus ídolos se impõem. Eles também
fingem que não, assim como eu quando agradeço um elogio – “Mas eu nem tinha
notado!” (passei a noite inteira me perguntando se alguém reparou).
É
triste pensar que o ponto alto da minha semana é receber um print de alguém
elogiando a imagem que criei de mim mesma. Construí, moldei, avalie, imitei,
até que enfim desencanei... Mas voltei. Sempre volto para o mesmo ideal de que
tudo só vai estar bem se eu seguir esse padrão que me forço acreditar que é
meu, que eu que criei para mim. Sei bem que não é exatamente isso, mas finjamos
que é para meu ego se inflar um pouco. Vamos lá, galerë, antes de ter uma
conversa franca com alguém é preciso admitir que infelizmente o que mais
prezamos numa relação interpessoal é o coeficiente de elevação desse nosso ego
indomável. Não haveria depressão se não houvesse ego.
Hoje em
dia eu basicamente finjo e atuo. Finjo que está tudo bem quando atuo esse
personagem indomável que criei. Finjo que está tudo bem quando percebo que
minha atuação é digna de Sibyl Vane após um beijo de Dorian Gray. E aí eu atuo
quando finjo que não ligo para a rejeição. Algumas pessoas me aplaudem de pé,
me jogam flores e pedem autógrafos. Agradeço cordialmente (“Mas eu nem percebi!”)
e continuo minha vida. Mas há esse outro público que me atira tomates e vaia
sem dó. Curioso que aqui não continuo minha vida. Aqui, ela para, estagna, vira
um limbo. Fico sem chão e minha melhor amiga me tira do palco. Dona Impulsividade,
que sempre me acompanhou nos momentos de desespero. Devo a ela muitas coisas. Nenhuma
muito boa.
Mas disso
tudo tiro o que? Tiro nada, né galera. Nadinha. Sabe por quê? É, eu também não.
Olha, desculpa, ainda estou aprendendo a viver, não detenho todas as respostas
do meu drama pessoal. É drama. É teatro. É coisa passageira. Ou nem é. O que
sei é que às vezes canso de atuar e fingir, canso desse dramalhão, canso de
imitar gente que nem mesmo eu respeito. Só queria poder viver de boas sem ter que
seguir nenhum padrão imposto por mim – ou pelo sistema governal. Ou pelo
capitalismo padronizado. Ou pela sociedade midiática. Ou pelo elitismo machista.
Ou pela meritocracia patriarcal. Ou por sei lá o que.
(2014)