sábado, 22 de novembro de 2014

Confissões do rolê egoísta que a gente vive a vida toda

                Eu vivo à sombra dos meus ídolos. Eles estão lá, a todo instante me bombardeando com inseguranças e fazendo minhas palavras serem tão balbuciadas quanto as de Fabiano no sertão. Os vejo e me vem uma nuvem de rancor escura coexistindo com aquele sentimento de que os admiro com uma profundidade irritante, pois sem eles eu não seria nem metade do que sou hoje.
                Meus ídolos são, além dos ovacionados, aqueles que postam os melhores textos, os que tem os amigos mais bonitos, os que tiram as fotos com os efeitos mais legais, aqueles que conseguem milhares de curtidas. Venha você também me criticar e fingir que não liga tanto ou mais que eu para esses detalhes. Pode vir, está convidado. A hipocrisia neste mundo já ultrapassou todos os limites considerados saudáveis, mesmo.
                Pois lhe digo que os são, pois os são. Tento segui-los, tento ser como eles, tento gritar minha opinião moldada, tento me vestir e ser tão underground quanto. Afinal, neste mundinho bobo que nós construímos pra viver, existe um padrão a ser seguido e nos coagimos quando desviamos deste caminho pré-delimitado antes mesmo de notarmos. Ah não, aqui você não pode botar a culpa no sistema. Neste capitalismo opressor. Na sociedade patriarcal e machista. No governo elitista. Na meritocracia. Na mídia padronizada. Não, aqui a culpa é sua, viu? E aprender a conviver com os padrões que você mesmo se impôs é uma habilidade que deverá desenvolver sozinho. Desvinculado de todos esses vínculos. Achar o padrão que se impôs é uma busca emocional. Se desvincular dele é espiritual. Convoque seu Buda que o clima tá tenso.
                Sei que parte do que me imponho é retirado do que meus ídolos se impõem. Eles também fingem que não, assim como eu quando agradeço um elogio – “Mas eu nem tinha notado!” (passei a noite inteira me perguntando se alguém reparou).
                É triste pensar que o ponto alto da minha semana é receber um print de alguém elogiando a imagem que criei de mim mesma. Construí, moldei, avalie, imitei, até que enfim desencanei... Mas voltei. Sempre volto para o mesmo ideal de que tudo só vai estar bem se eu seguir esse padrão que me forço acreditar que é meu, que eu que criei para mim. Sei bem que não é exatamente isso, mas finjamos que é para meu ego se inflar um pouco. Vamos lá, galerë, antes de ter uma conversa franca com alguém é preciso admitir que infelizmente o que mais prezamos numa relação interpessoal é o coeficiente de elevação desse nosso ego indomável. Não haveria depressão se não houvesse ego.
                Hoje em dia eu basicamente finjo e atuo. Finjo que está tudo bem quando atuo esse personagem indomável que criei. Finjo que está tudo bem quando percebo que minha atuação é digna de Sibyl Vane após um beijo de Dorian Gray. E aí eu atuo quando finjo que não ligo para a rejeição. Algumas pessoas me aplaudem de pé, me jogam flores e pedem autógrafos. Agradeço cordialmente (“Mas eu nem percebi!”) e continuo minha vida. Mas há esse outro público que me atira tomates e vaia sem dó. Curioso que aqui não continuo minha vida. Aqui, ela para, estagna, vira um limbo. Fico sem chão e minha melhor amiga me tira do palco. Dona Impulsividade, que sempre me acompanhou nos momentos de desespero. Devo a ela muitas coisas. Nenhuma muito boa.
                Mas disso tudo tiro o que? Tiro nada, né galera. Nadinha. Sabe por quê? É, eu também não. Olha, desculpa, ainda estou aprendendo a viver, não detenho todas as respostas do meu drama pessoal. É drama. É teatro. É coisa passageira. Ou nem é. O que sei é que às vezes canso de atuar e fingir, canso desse dramalhão, canso de imitar gente que nem mesmo eu respeito. Só queria poder viver de boas sem ter que seguir nenhum padrão imposto por mim – ou pelo sistema governal. Ou pelo capitalismo padronizado. Ou pela sociedade midiática. Ou pelo elitismo machista. Ou pela meritocracia patriarcal. Ou por sei lá o que.

(2014)


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