sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Releitura do clássico dos 70's: Ziggy Stardust

                Resolvi fazer umas interpretações pessoais das músicas de um dos melhores álbuns dos anos 70: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. Ainda estou pensando se farei uma linha temporal entre os contos ou seguirei as letras mesmo, mas tem tempo até lá. 
                A primeira é uma das minhas favoritas: Ziggy Stardust. A letra, pra quem não conhece (que pecado!), é:

Ziggy played guitar
Jamming good with Weird and Gilly
And the spiders from Mars
He played it left hand
But made it too far
Became the special man
Then we were Ziggy's band

Ziggy really sang
Screwed up eyes and screwed down hairdo
Like some cat from Japan
He could lick 'em by smiling
He could leave 'em to hang
Came on so loaded man
Well hung and snow white tan

So where were the spiders
While the fly tried to break our balls
Just the beer light to guide us
So we bitched about his fans
And should we crush his sweet hands?

Ziggy played for time
Jiving us that we were voodoo
The kids were just crass
He was the nass
With God given ass
He took it all too far but
boy could he play guitar

Making love with his ego
Ziggy sucked up into his mind
Like a leper messiah
When the kids had killed the man
I had to break up the band

Ziggy played guitar



A qualidade do som definitivamente não é das melhores, mas essa apresentação é a clássica de 73, nela dá pra perceber toda a magnificência desse que foi, em minha opinião, o melhor personagem que Bowie criou. Sua presença de palco e interpretação da música, o clima, os fãs... tudo me arrepia nesse vídeo. Espero que dê pra ver este Ziggy no conto :)

Tradução:
Ziggy tocava guitarra
Arrasava junto com o Weird e o Gilly
E "as Aranhas de Marte"
Ele era canhoto
Mas foi longe demais
Virou o cara do momento
E aí viramos a banda do Ziggy

O Ziggy cantava pra valer
Revirava os olhos e desmanchava o penteado
Como um gato japonês
Ele os lambia com sorrisos
O os deixava pra lá
Chegava com tanta pompa
Bem dotado e sem bronzeado

E onde estavam as aranhas
Quando a mosca tentava acabar com a nossa coragem?
Apenas o luminoso da cerveja a nos guiar
Então reclamamos de seus fãs
E devíamos esmagar sua doces mãos?

Ziggy tocou muito tempo
Nos dizendo que éramos uns abutres
A molecada era grosseira
Ele era o máximo
Com o traseiro que Deus lhe deu
Ele levou tudo muito a sério, mas
Cara, como ele tocava guitarra!

Fazendo amor com seu ego
Ziggy se fechou na sua própria mente
Como um Messias leproso
Quando os garotos mataram o cara
Eu tive que acabar com a banda

Ziggy tocava guitarra

                E aqui o conto, boa leitura! :)

                "Que eles nunca leiam isso, mas nós éramos pura mediocridade.
                Não tocávamos, não cantávamos, não sabíamos cativar. Só o que fazíamos era juntar o som de três instrumentos e fingir que estava harmonioso. O The Rats nunca poderia ir para frente, tínhamos a plena consciência disso. Talvez quiséssemos sucesso, como toda bandinha de garagem quer, mas no final das contas, era simplesmente divertido tirar um som com os caras. Antes dele, era sim.
                Um de nossos companheiros tinha derrubado um dos pratos da bateria mais uma vez quando ele surgiu na nossa porta. Prendemos a respiração por uns momentos, afinal, quem é que sabe o que se passa na cabeça de um marciano de ressaca?
                - Que barulho é esse? – foi a primeira frase que ele nos disse, soando atordoado, talvez com dor de cabeça. Porém, não parecia incomodado. Na verdade, seus olhos denotavam certo fascínio pelos instrumentos que segurávamos. Nunca entenderei o que aconteceu naquela tarde, mas ele pediu para que eu tocasse minha guitarra e, no momento seguinte, reproduziu todos os meus movimentos com a perfeição de um profissional.
                Ele analisou Mary, a guitarra, por alguns instantes e então fez o som mais estranho que já ouvira na vida. Ele disse que era assim que os anéis de Saturno soavam. Sendo bem honesto, eu quase chorei com aquele riff perfeito e inovador – talvez hoje eu possa entender o fascínio que as pessoas têm por ele, pois a primeira vista, aquele cara é um deus.
                Seu nome era Ziggy Stardust e ele era um alienígena.
                Segundo a lenda, ele caiu na Terra com sua espaçonave – que por sinal, encontra-se flutuando no céu do centro da cidade até hoje – e desde então ficou, aprendendo e desenvolvendo suas habilidades sociais humanas. Todos os veículos de notícia estavam falando sobre ele, sobre seu corpo alto e rosado, sobre seus poderes, sobre seus cabelos cor de fogo.
                Não sei bem em que parte de sua aventura ele se encontrava quando o encontramos na sarjeta numa noite. Pelo visto, o álcool terrestre tem o mesmo efeito no organismo alienígena. O levamos para minha casa e o deixamos dormir na garagem. Ele dormiu por três dias inteiro. E naquela tarde, acordou.
                A partir daquele dia, não éramos mais os The Rats, uma bandinha de garagem qualquer. Nos tornamos os Spiders from Mars e Ziggy era nosso vocalista. Além de tocar a guitarra mais insana que qualquer terráqueo já ouviu. Nada se igualava ao som que fizemos naquela época, até hoje não sei como aquele marciano conseguiu compor músicas tão inéditas e, ainda assim, tão terrenas. Ele falava sobre tudo o que via aqui, sobre as garotas que iam em nossos shows e sobre as meias que usavam, sobre a televisão, sobre as brigas que ouvia no quarto ao lado. Tudo isso com a sua guitarra frenética tocando “os sons do espaço”. Não tínhamos muito o que fazer com os outros instrumentos, então só tentávamos acompanhá-lo. Ele ficava feliz com o resultado, na maioria das vezes.
                Ziggy sabia que não precisava de nós. Todos nós sabíamos. Mas ele parecia ter criado uma espécie de elo. Elo estranho e desajeitado, pois não fazia questão de mantê-lo muito forte. Na verdade, às vezes parecia fazer questão de quebrá-lo. Ziggy era difícil de conviver e os jornais e revistas apenas dificultavam o fato de que tínhamos que lidar com seu ego.
                - Eu não preciso de vocês. – ele nos disse uma vez, com uma naturalidade que quase teria me chocado... se eu não soubesse que era verdade. O olhar que os outros dois membros trocaram emanava desconforto e eu tive que fazer algo para remediar a situação. Eu sempre remediava a situação.
                - Que isso, Ziggy, nós somos as Aranhas – eu soava inseguro e até meio débil,pois como eu disse: quem é que sabe o que se passa na cabeça de um marciano?
                - Estão mais para as Moscas – folheou uma revista com uma enorme foto sua, com indiferença – E eu, a Aranha, devoro todos vocês.
                Apesar disso, ele não era de todo ruim. Ou talvez eu que tentasse ver muito fundo em sua índole, procurando por qualquer resquício de bondade. Ele não podia fazer esse som incrível e ser uma pessoa tão asquerosa como aquela que estava se tornando.
                "Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" era o título da manchete de um jornal que sempre líamos. A partir daquela publicação, a situação tornou-se insustentável; ela foi a ruptura definitiva do nosso elo com ele. Éramos agora a banda do Ziggy e ele era a estrela. O astro rei. Ziggy raramente dirigia a palavra a algum de nós, parecia que só falava com seu ego. Quando alguém se aproximava dele, tudo o que ouvia era palavras afiadas e grosseiras. Talvez não por mal, mas porque ele não achava que devia gastar seu tempo conosco... Eu não o entendia muito bem.
                E talvez esse tenha sido um ponto crucial para eu não notar o que os outros dois membros da banda estavam tramando. Eu queria ver bondade em Ziggy, mas eles enxergavam apenas o pior. E quando eu menos esperava, o encontrei morto em seu quarto. Os outros Aranhas já tinham partido há tempos e eu fiquei lá, meio aliviado meio consternado.
               Os tempos de Spiders from Mars não me fazem muita falta, não. Talvez Ziggy me faça um pouco, mas é algo que dá para lidar. A banda acabou após isso, é claro, afinal sem Ziggy, sem Aranhas. E no final ele estava certo: éramos apenas moscas presas em sua teia"    
             
(2015)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

a ciência explica até o que a ciência não explica: como saber que algo é louco.

O fóton é uma coisinha pequena e sem massa que ilumina nosso mundo. Sem ele nós provavelmente nem existiríamos, veja só. Ele se comporta como onda, mas quando os cientistas tentam medir seu comprimento, ele começa a se comportar como partícula. E por esta razão, com nosso atual conhecimento, nós não conseguimos entender completamente o dito cujo. Uma coisa louca é como o fóton: se comporta de forma imprevisível.
               


Mas na grande maioria das vezes, sejamos honestos, apenas chamamos algo de louco, pois não o entendemos completamente. Não ainda. E é nessa hora que devemos incorporar o método científico e tentar compreender seja lá o que estamos nos deparando, antes de julgar errônea ou precipitadamente. Viu, só? Todos nós podemos ser cientistas. 

(2014)

a ciência explica até o que a ciência não explica: o que são lágrimas.

Nesse nosso mundo de meu-deus, existe uma força chamada nuclear forte e é ela que mantém as partículas do núcleo dos átomos unidas. Ela é simplesmente a coisa mais forte de todo o universo. Mais forte até que a gravidade (quem é gravidade no rolê das forças, não é mesmo?). Porém, existe uma outra força chamada nuclear fraca e ela ocorre em algumas excepcionais ocasiões quando está cancelando os efeitos da força nuclear forte, fazendo o núcleo dos átomos se desprenderem. É isso que causa a radioatividade.

Chorar é como um efeito da força nuclear fraca. Às vezes, até a coisa mais forte do universo se despedaça e se esparrama em sua vida... na forma de lágrimas. A bem da verdade, somos todos radioativos. Ponto para o Imagine Dragons.


(2014)

Crônica do Inevitável

                E com ela eu estava, a moça Caroline. Não senhor, nada de Carol, gostava de ser chamada Caroline. Com seus cabelos longos e cacheados, balançando às costas feito trepadeiras negras, convidou-me para aquele chá da tarde após as aulas. Era dia ainda lá fora. Eu estava cansado e com enxaqueca, mas a moça tinha algo que me encantava. Seriam as sardas na pele perfumada? Ou o papo confiante e levemente rebelde? Ora essa, ela pediu café no chá da tarde.

                Com Caroline não tinha tempo ruim, sai do encontro flutuando alegria. Moça boa aquela ali. Mas seria tão boa quanto a que vi sorrindo em minha direção? Valentina, amiga de infância, acabou que nos encontramos naquela tarde. Tão graciosa e dócil, será que não muda? Suas bochechas rosaram-se ao passo que aceitei seu convite para um almoço na quarta-feira. Ora, mas que mal? Sentia saudade da pequena.


                Entristeci-me por não poder conversar mais com a loirinha do nariz pequeno, mas logo passou quando reconheci, desengonçado e concentrado em seu livro, o Afonso. Oras, o Afonso! Tão curtido e seguido, o Afonso Correa, que não tardou a tagarelar sobre assuntos que tanto interessavam a nós dois, deixando desconfortável a pobre senhora sentada ao nosso lado naquele metrô quase cheio. Não era pico.


                Quis recusar, mas seu sorriso me atraiu naquela hora, o papo estava bom e queria que continuasse, então aceitei um almoço para quarta-feira antes que ele desembarcasse na Sé. Sé. Onde será que ele morava?


                As escadarias de meu prédio de quatro andares me reservaram outro encontro. Coral. Coraline quase Caroline, mas gostava de Coral, então que seja Coral. Coral descia agitada e ansiosa, deixando cair o cardigan preso à bolsa, enquanto eu subia já forçando o olhar para seus olhos para não desviar para aquele vestidinho.


                Não quis saber. Marcou um almoço quarta-feira, dizendo que precisava me contar mil e uma novidades. Ela nunca tinha coisa pouca pra contar. Quis recusar, afinal, sou magrelo e não aguento dois almoços na mesma tarde, que dirá três, mas suas mãozinhas seguraram meu rosto e ali constatei que seus lábios eram macios. Deixei estar.


                O jeito ao chegar foi ver se algum dos meus amigos almoçadeiros estavam online para desmarcar mal entendidos, mas me desconcentrei ao ver a bolinha verde no nome de Thomas. Não tardei ao ler e responder suas palavras sempre certas, o vocabulário refinado, o charme sempre presente em seus tons.


                Ah, Thomas, homem feito, que é uma honra apenas por pronunciar seu nome como um amigo, que dirá almoçar com ele, ouvir sua voz e admirar seus gestos. Mas é claro, meu bem, podemos almoçar.



 “Só poderei quarta-feira, tudo bem?”



(2014)


Uma Crônica Inacabada: A Parte Boa é que Demora.

                A parte boa é que demora. Nos vemos a cada volta de Marte (não de Vênus), trocamos e-mails só nos alinhamentos dos planetas e o flerte, ele acontece dentro de uma nebulosa; só quando uma estrela nasce.
                Me dá uma agonia estranha esperar por tudo isso. Um desespero bizarro. Desperta uma obsessão peculiar dentro de mim. Nos conhecemos numa circunstância tabu, mas conseguimos de alguma forma evoluir essa amizade doida que hoje me dá calafrios. Calafrios é uma palavra muito forte, deixa eu trocar por... qual é aquele sinônimo bonitinho? Ah, sim: arrepios.
                 Todos nós temos nossas preferências e particularidades, se eu tivesse que escolher uma minha, sem dúvidas seria: o exquisite. A guitarra não me convence, realismo não me atrai, a direita me dá sono. O que me comove é mais elaborado e muitas vezes errado. É bizarro, é peculiar e tabu. E dentro de tudo isso, concordando com cada exigência minha, me surge este moço.
                Seus cabelos parecem um emaranhado de fones de ouvido. E ele tem uma pele interessante, que muda de cor a cada dia. Nos vemos tão pouquinho. Só a cada volta de Marte. Mas sempre tem algo diferente em sua pele. É tão intrigante. Às vezes me chama mais atenção do que o bom senso, pois me faz querer olhar indisciplinadamente, admirar, tocar, é tão bonito...
                 Gosto quando conversamos em seu carro e ele irresponsavelmente se vira por alguns segundos só para me olhar nos olhos. Gosto quando percebo que isso só acontece porque ele nota que necessito olhar em seus olhos. Gosto de olhá-lo nos olhos. Não me lembro de sua cor.
                Queria falar tudo que me chama atenção sobre ele, mas vou eleger um tópico que apenas por lembrar me descompassou o coração. Que comece a cair a chuva de clichê, mas seu sorriso é como a altura do meu medo, que olho e me dá calafrios. Calafrios não: arrepios. Ele sorri tímido, não é como eu que estou sempre por aí fazendo comercial de pasta de dente. Ele sorri pequeno, sorri bonito. Só sorri quando tem certeza de que seus olhos estão nos meus. Sorri um sorriso que me faz perguntar pelo o que mais sorri. Que me faz ter uma ânsia de ver mais, de provocar mais desses. Eita gente, ele tem uns dentinhos tão pequenininhos.

                Mas demora tanto até que eu possa admirar tudo isso novamente. Tanto! A cada volta de Marte, apenas! É tão diferente dessa construção batida dos relacionamentos que estou acostumada, always the same old: conheço uma pessoa, flerto com essa pessoa, pego essa pessoa. E acaba aí. Isso dura no máximo um mês. Mas com este moço não. Com ele, a parte boa é que demora. A parte boa é ter esse friozinho na barriga por esperar o alinhamento dos planetas para receber um e-mail. A parte boa é não conseguir segurar as batidas do coração quando estamos a poucas horas de nos ver, só imaginando como será desta vez. A parte boa é ser engolfada pela nebulosa quando surge bem timidamente um flerte. É a melhor parte me encher de dúvida sobre se ele está realmente interessado ou eu que estou vendo demais.

...inacabei.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Divagar e sempre #2

Intensidade
da saudade
d² pela massa
das vontades

Fumaça
Insensível
Incenso
é visível

Vamos pra
Liba,
Liebe
Li Hebe

Confusa
Influenciada
Reclusa
e iluminada



(2015)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Gravidade

Vou explicar minha carência:
     Uma forma rápida
     e prática
     pra calcular essa sofrência

É a distância ao quadrado
Pela massa da vontade
Tendo isso calculado
têm-se o produto da saudade!

Mas não ache anormal
Se notar que essa intensidade
É inversamente proporcional
à força da gravidade!

(2014)