segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Uma Crônica Inacabada: A Parte Boa é que Demora.

                A parte boa é que demora. Nos vemos a cada volta de Marte (não de Vênus), trocamos e-mails só nos alinhamentos dos planetas e o flerte, ele acontece dentro de uma nebulosa; só quando uma estrela nasce.
                Me dá uma agonia estranha esperar por tudo isso. Um desespero bizarro. Desperta uma obsessão peculiar dentro de mim. Nos conhecemos numa circunstância tabu, mas conseguimos de alguma forma evoluir essa amizade doida que hoje me dá calafrios. Calafrios é uma palavra muito forte, deixa eu trocar por... qual é aquele sinônimo bonitinho? Ah, sim: arrepios.
                 Todos nós temos nossas preferências e particularidades, se eu tivesse que escolher uma minha, sem dúvidas seria: o exquisite. A guitarra não me convence, realismo não me atrai, a direita me dá sono. O que me comove é mais elaborado e muitas vezes errado. É bizarro, é peculiar e tabu. E dentro de tudo isso, concordando com cada exigência minha, me surge este moço.
                Seus cabelos parecem um emaranhado de fones de ouvido. E ele tem uma pele interessante, que muda de cor a cada dia. Nos vemos tão pouquinho. Só a cada volta de Marte. Mas sempre tem algo diferente em sua pele. É tão intrigante. Às vezes me chama mais atenção do que o bom senso, pois me faz querer olhar indisciplinadamente, admirar, tocar, é tão bonito...
                 Gosto quando conversamos em seu carro e ele irresponsavelmente se vira por alguns segundos só para me olhar nos olhos. Gosto quando percebo que isso só acontece porque ele nota que necessito olhar em seus olhos. Gosto de olhá-lo nos olhos. Não me lembro de sua cor.
                Queria falar tudo que me chama atenção sobre ele, mas vou eleger um tópico que apenas por lembrar me descompassou o coração. Que comece a cair a chuva de clichê, mas seu sorriso é como a altura do meu medo, que olho e me dá calafrios. Calafrios não: arrepios. Ele sorri tímido, não é como eu que estou sempre por aí fazendo comercial de pasta de dente. Ele sorri pequeno, sorri bonito. Só sorri quando tem certeza de que seus olhos estão nos meus. Sorri um sorriso que me faz perguntar pelo o que mais sorri. Que me faz ter uma ânsia de ver mais, de provocar mais desses. Eita gente, ele tem uns dentinhos tão pequenininhos.

                Mas demora tanto até que eu possa admirar tudo isso novamente. Tanto! A cada volta de Marte, apenas! É tão diferente dessa construção batida dos relacionamentos que estou acostumada, always the same old: conheço uma pessoa, flerto com essa pessoa, pego essa pessoa. E acaba aí. Isso dura no máximo um mês. Mas com este moço não. Com ele, a parte boa é que demora. A parte boa é ter esse friozinho na barriga por esperar o alinhamento dos planetas para receber um e-mail. A parte boa é não conseguir segurar as batidas do coração quando estamos a poucas horas de nos ver, só imaginando como será desta vez. A parte boa é ser engolfada pela nebulosa quando surge bem timidamente um flerte. É a melhor parte me encher de dúvida sobre se ele está realmente interessado ou eu que estou vendo demais.

...inacabei.


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